Paulo Leminski: Perfil e Obra

por Marcos Magri

Paulo Leminski: Perfil e Obra

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

Paulo Leminski foi um poeta, músico, compositor, publicitário, tradutor, boêmio, poliglota, professor de história (olha lá, hein!) afro-polaco-brasileiro nascido em 1944 na cidade de Curitiba, a cidade dos “muitos pinheiros”- segundo uma possibilidade etimológica-, o que certamente agradaria a ele, que gostava de dizer que “Um Pinheiro não se transplanta”, referindo-se ao fato de que, apesar de ter sido profundamente cosmopolita, nunca conseguiu se afastar de sua cidade natal por muito tempo. Foi um daqueles caras síntese de uma época, no caso os agitados anos 60 e 70, época da contracultura e de tristes ditaduras e guerras. Misto de erudito e marginal, Leminski se interessou por tudo que marcou a juventude de sua época: a filosofia oriental, as drogas, os Beatles, as tentativas de transformar as relações cotidianas e a repressão. Juntou tudo isso a seu enorme conhecimento da cultura tradicional (os clássicos gregos e latinos e a obra de poetas das mais variadas origens) e criou uma das mais originais produções poéticas do século XX. Morreu de cirrose hepática em 1989, após uma vida de exageros em todos os sentidos: etílico, emocionais, políticos e culturais.Leminski sempre foi um pau torto (em um poema define-se como um “cachorro louco” capaz de estragar o piquenique alheio, ou seja, enxergava-se, e era mesmo, um catalisador de ideias inovadoras que ameaçavam a ordem cultural e política). Começou a escrever poemas ainda criança e aos quatorze anos decidiu que queria estudar no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Ficou lá um ano, onde, ao que consta, aprendeu muito. Acabou saindo, pois uma pessoa como ele definitivamente não servia muito bem como monge. No entanto, apesar de seu reconhecido fracasso como sacerdote, o poeta nunca definiu como traumática a experiência no mosteiro. Muito pelo contrário. Deixou poemas maravilhosos sobre sua permanência lá, que mostram que o material aprendido não envolvia apenas filosofia e idiomas, mas sim sobre o mistério da vida:

IN HONORE ORDINIS SANCTI BENEDICTI
à ordem de são bento
a ordem que sabe
que o fogo é lento
e está aqui fora
a ordem que vai dentro
a ordem sabe
que tudo é santo
a hora a cor a água
o canto o incenso o silêncio
e no interior do mais pequeno
abre-se profundo
a flor do espaço mais imenso

Em outra ocasião escreveria, também se referindo à experiência no mosteiro:

Sacro lavoro
as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo

hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto

O primeiro livro publicado por Leminski é um romance experimental chamado Catatau que se chamava assim devido ao fato de que o poeta sempre foi sinônimo de informalidade e desorganização (seu leme, “distraídos venceremos!”, virou nome de livro). Essa nobre postura contribuía para que ele escrevesse em todo tipo de objeto: guardanapos, rótulos de cerveja, qualquer coisa. Quando voltava pra casa portava tudo debaixo do braço, daí o comentário dos vizinhos: “lá vai o Leminski com seu catatau”. Pegou e assim permaneceu.

A obra trata de uma pergunta histórica: o que teria acontecido se Descartes (filósofo francês do século XVII) tivesse acompanhado Maurício de Nassau (nobre holandês que auxiliou na administração da ocupação holandesa do nordeste do Brasil no século XVII) e ficasse na praia esperando um navio enquanto fumava ervas alucinógenas? O resultado é o conflito do pensamento racional europeu com uma realidade que lhe é estranha, o grande delírio de um filosofo perdido. Vejamos um trecho:

“Muito sabe, pouco ri. Enquanto muitos riem, os mestres a portas fechadas meditam sobre a guerra. O primeiro gole de vinho melhora o tiro, o segundo gole — só Zenão! Assim como o primeiro tiro aprimemora o segundo tiro, a segunda flecha corrige a receita. Eclipse entra no sol em frente duma flecha persa, o sol pára e Xerxes o preenche a flechas. Como viver à luz de flechas? Da arte — não se vive; ver flor, calar. E calando a boca, de assunto mudo, vamos falar de flechas persas. O assunto me muda. O silêncio, próprio de alunos, instrui. Mas só os mestres sabem calar dizendo tudo. Tudo é ainda pouco.”

Posteriormente, Leminski publicaria outro romance, segundo ele próprio mais acessível, além de vários ensaios sobre temas tão diversos como a filosofia zen, o grafite e o falar curitibano. Contudo, vamos dar um foco aqui na produção poética dele.

O poeta era muito interessado na cultura japonesa, o que se mostra claro tanto graças à sua prática de judô (chegou à faixa preta ainda muito jovem) como à sua dedicação ao Haikai (um tipo de poesia nipônica que prima pela concisão e objetividade). Vejamos alguns deles:

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

essa vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

a noite – enorme
tudo dorme
menos teu nome

Leminski e Gilberto Gil

A verve poética de Leminski também aflorou em suas inúmeras participações como compositor de canções em parceria com gente como Caetano Veloso, a banda A Chave e Itamar Assunção. Talvez uma das músicas mais famosas do poeta seja “Verdura”, muito conhecida na época de seu lançamento, no qual é tratada de forma irônica a venda de crianças para uma família americana. Aqui vai um vídeo da canção, numa pegada mais Rock N’ Roll, gravada pela banda Blindagem:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=okA0O02d40o&w=600]

Leminski, portanto, se aproximou dos mais diversos meios de expressão. Alguns clássicos como o haikai, outros modernos como o rock. Para ele, o que importava era criar — fosse o que fosse. Não sou poeta de final de semana, disse certa vez. Poesia 24 horas por dia. Muito de seu charme provavelmente derivava dessa entrega completa, tanto à própria criação, como ao incentivo à alheia. Nas palavras de Toninho Vaz, seu biógrafo:

“Este era o caminho para a verdadeira liberdade, a liberdade de criar. Adotando um certo tom de soberba, sugeria a adoção de um ‘espírito olímpico’ de disputa que beirasse o confronto ‘só pra animar a festa’. Era competitivo mas mantinha um forte espírito de equipe, tornando a causa sempre coletiva e distribuindo faíscas de otimismo e auto estima (mais do que estima, crença) entre todos que o cercavam. Descobria com facilidade o que o ‘outro’ tinha de melhor.”*

Paulo Leminski e sua mulher, Alice-Ruiz

Tudo isso se refletia em sua própria produção poética, otimista sem ser cor-de-rosa. Como se ele, pelo menos sempre penso nisso quando o leio, tivesse em mente constantemente os versos de Maiakóvski (poeta muito admirado por ele, diga-se de passagem): “brilhar para sempre/brilhar como um farol/brilhar com brilho eterno/gente é pra brilhar/que tudo mais vá pro inferno/esse é o meu lema/e o do sol.” Brilhou, brilhou muito e já foi pra outras viagens. Quando morreu, o funcionário do cartório perguntou: “O falecido deixou bens?” ao que recebeu pronta resposta “sim, todas intangíveis”.

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=zkl57-hC3ko&w=600]