O Nariz de Cleópatra

por Lucas Chnaiderman

O Nariz de Cleópatra

Todo mundo já ouviu alguma vez o nome Cleópatra, a rainha do Egito, a mulher sedutora, a amante, ou aquela que a Elizabeth Taylor, com os olhos violeta, representa com tamanha beleza…

Cleópatra seduziu Júlio César, o general romano. Diz a lenda que em 47 A.C. quando César invadia o Egito, este não queria ver ninguém da família do faraó, da qual Cleópatra fazia parte. Acontece que a egípcia teria se esquivado e enrolado-se num tapete. O objeto foi dado a César e, espantado, o general viu Cleópatra sair de dentro do tapete direto para os seus braços.

Cleópatra teve um filho de César e chegou a morar em Roma durante um tempo, no qual atraiu a raiva da população. Em 44 A.C. César foi assassinado e a guerra civil estourou em Roma. Os vitoriosos na guerra foram os ex-aliados de Júlio Cesar, o triunvirato formado por Otaviano, Marco Antônio e Lépido.

Três anos depois, em 41 A.C, Cleópatra, a sedutora egípcia, conquista Marco Antônio, que era um dos maiores chefes de Roma, dividindo o poder com Otaviano, pois Lépido já estava exilado. Cleópatra teve três filhos com Marco Antônio, que se viu em meio a uma paixão arrebatadora, dessas pelas quais você abandona um reino pela mulher, dessas que faz você se matar quando ouve que a mulher amada está morta.

Enfim, chegamos a parte interessante da história: No século XVII, o famoso matemático Blaise Pascal (imagem à esquerda) afirmou: “Se o nariz de Cleópatra fosse menor, toda a face da terra teria mudado”. O tarado Pascal  tinha descoberto porque Marco Antônio se apaixonara por aquela exótica egípcia: o nariz. Afinal, quem nunca se apaixonou por um nariz? Pequeno, grande, curto ou longo, de batata ou não… O nariz é alma da face.

A paixão de Marco Antônio por Cleópatra fez com que ele mudasse de cidade, passando a residir em Alexandria, juntinho de sua amada. Marco Antônio nomeou Cleópatra a sua rainha, embora já fosse casado, e decidiu que ia brigar com meio mundo para colocar a sua amada no trono do universo.

Toda essa situação levou a uma nova guerra civil, agora entre Otaviano e Marco Antônio, em 33 A.C. Cleópatra podia não ser a razão da guerra, mas que era uma grande motivação, isso era! Como diria Pascal, aquele nariz só causava problemas…

Como vocês sabem, Otaviano ganhou a guerra em 30 A.C. e Marco Antônio se matou. Reza a lenda que quando Cleópatra soube da morte de seu amor, teria se deixado picar por uma naja. Outros dizem que os dois beberam veneno juntos, morrendo como dois amantes na cama.

A morte de Cleópatra, de Reginald Arthur, 1892

Pouco importa tudo isso, a grande questão é percebemos, como fez Pascal, que se o nariz de Cleópatra fosse diferente, talvez o império romano, instituído pelo vencedor Otaviano em 27 A.C., nunca existisse e nem toda a história mundo que veio depois. Afinal, talvez sem Cleópatra e seu nariz (assim pensava Pascal), Otaviano e Marco Antônio nunca teriam brigado e, portanto, Otaviano jamais seria imperador. Isso seria a prova do acaso, do fortuito, da sorte, na história.

E não riam disso, porque o acaso é realmente algo importante. Todo mundo sabe dar algum exemplo de “nariz de Cleópatra” na história. Alguns poderiam falar do fato dos botões do exército de Napoleão serem feitos de estanho, que não resistem ao frio, daí Napoleão ter perdido na Rússia: os seus soldados não conseguiam se abotoar e morriam de frio!!!

Agora sério… O que motivou tantas descobertas na química senão o acaso? Da penicilina (descoberta de Alexander Flaming, da foto ao lado) ao lítio, quase tudo descoberto por sorte… E se César tivesse lido o bilhetinho que avisava da conspiração para matá-lo, bilhete que ele guardou no bolso e morreu com ele? E se a IBM tivesse conseguido falar com as duas empresas que ela tentou antes de achar a desconhecida (à época) Microsoft? Há tanto acaso na história, que é muito difícil não se convencer de que a sorte impera no mundo.

Todos nós temos nossos narizes de Cleópatra. E nessa ressaca do ENEM é bom pensar nisso, pois porque não ter os nossos narizes justamente na prova? Justamente no chute que te deu a última vaga de medicina?

Eu me lembro do meu nariz de Cleópatra… A mudança de escola quando eu atingi o ensino médio se deveu apenas à sorte, pois eu nunca tinha ouvido falar da escola (a Federal, o IFET) antes de uma conversa, presenciada por acaso, um mês antes da inscrição, da boca de pessoas que eu mal conhecia… E foi na escola que eu conheci as pessoas que levo até hoje, deixando abandonados os amigos até a oitava série (hoje em dia nono ano).

Um nariz de Cleópatra mudou minha vida.

E qual foi o seu nariz? Qual foi o acaso que determinou todo o resto de sua vida?