Machado de Assis leitor de Iracema

por Gabriel Guimarães

Machado de Assis leitor de Iracema

Talvez possa espantar a todos aqueles viajantes de primeira viagem no mundo da literatura que, assim como as pessoas normais, os escritores também tinham amigos. Exatamente! Assim como você e eu, eles também são e foram pessoas de uma época e tiveram suas amizades e, também, graves inimizades como é o caso de alguns modernistas com parnasianos, mas contemos isso em outra oportunidade…

Depois desse primeiro choque inicial, devo continuar aqui nosso bate-papo acrescentando mais uma coisa e essa, como você já deve prever, provavelmente fará com que você talvez caia da cadeira, corra até uma encruzilhada, ajoelhe no chão e comece a gritar a plenos pulmões “mas como assim?!”. Lá vai a revelação: José de Alencar, o escritor de Iracema, também tinha os seus amigos (calma o choque está por vir) e, em meio ao seu círculo de amizades, encontrava-se o nosso tão famoso e querido pela garotada Machado de Assis.

Agora que já te assustei suficientemente e mudei toda a sua concepção de mundo (ou não) vale acrescentar que, além de amigos, Machado de Assis, querendo surpreender-nos sempre, ainda por cima era um grande admirador das obras de Alencar e do próprio Alencar enquanto pessoa ao qual devotava grande carinho e afeto.

Talvez você olhe espantado para essas palavras no monitor e pergunte para si mesmo ou para um imaginário “eu” em sua cabeça “Mas, onde está a contradição? Por que do espanto dessa amizade?”. Não sei o motivo do seu espanto (ou mesmo se você ficou espantado), mas quando me contaram isso, em caráter de extrema fofoca, tive essa reação dado o conflito entre os ideais dos dois escritores.

Vejamos, dessa forma, apenas dois pontos conflitantes entre os dois autores, mas que creio serem os mais gritantes: José de Alencar era um romântico de primeira fase e Machado de Assis já estava inserido no que seria o Realismo, embora o seu realismo tenha adquirido tons realmente peculiares e, como percebemos nas obras de Machado, na qual citamos apenas o seu romance Iaiá Garcia, a título de uma exemplificação, o realista tirava certo sarro daquele povo romântico e da figura dos românticos como um todo. Outro ponto, esse talvez vá mais direto no âmago dos dois escritores, é que Alencar era a favor da escravidão e Machado opunha-se a ela. Tanto que os contos do autor realista possuem várias leituras do abominável da escravidão, como o conto exemplar Pai contra mãe, e o romântico Alencar publicou uma série de cartas condenando as medidas filantrópicas de D. Pedro II para com os escravos sob o pseudônimo de Erasmo, além, obviamente, da peça teatral Demônio Familiar, na qual o escravo aparece na figura do Demônio Familiar, com seus interesses próprios impedindo o amor dos protagonistas.

Convenhamos, eram pontos muito divergentes entre si, no entanto, a amizade existia.

Ao falar sobre a velhice de Alencar podemos até imaginar a cena quando Machado descreve no prefácio que escreveu para uma edição comemorativa de O Guarani (obra de autoria de Alencar) “Lembram-me ainda algumas manhãs, quando ia achá-lo (Alencar) nas alamedas solitárias do Passeio Público, andando e meditando, e punha-me a andar com ele, e a escutar-lhe a palavra doente, sem vibração de esperanças, nem já de saudades”. Evidenciando no autor amigo e recém-falecido a melancolia e desencanto dos últimos anos.

Além da amizade, à qual podemos inclusive visualizar as caminhadas dos dois escritores pelo Rio de Janeiro falando de assuntos que provavelmente acompanhavam um tom da melancolia dos livros finais do escritor cearense mesclado com o pessimismo visto nas obras machadianas, ainda por cima nos foi legado pela crítica a posição e a leitura que um escritor, Machado de Assis, fez sobre uma das maiores obras do outro.

Em sua crítica sobre Iracema há passagens que exalam o afeto dessas duas figuras da nossa literatura e, especialmente, o modo como o mais jovem tratava o poema em prosa feita pelo mais antigo. O excerto final da crítica exemplifica bem essa admiração “o Brasil tem o direito de pedir-lhe (a Alencar) que Iracema não seja o ponto final. Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se é antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe-á obra-prima”.

Para os mais afoitos por literatura e interessados por nossa índia idealizada Iracema, a leitura feita através dos olhos de um autor realista que realmente conheceu Alencar e dedica a ele certa afeição possa ser uma leitura interessante e agradável. Você pode encontrar esta crítica no site http://www.dominiopublico.gov.br na obra completa de Machado de Assis, na parte referente à Crítica, com o nome “José de Alencar: Iracema (1866)”.

Para quem não tem tanto interesse, mas mesmo assim talvez tenha agradado um pouco a leitura dessas palavras simples que se voltam à essa amizade singular, excetuando dela qualquer polêmica, permitam-me terminar com uma passagem, dessa crítica, que muito me agrada e revela, até certo modo, algumas características sobre os personagens do romance que talvez possa ser de algum interesse na hora do vestibular ou, espero também, possa despertar algum interesse não só pela amizade dessas duas figuras da nossa literatura, mas também pelo livro Iracema e, dentro dele, da amizade entre duas outras figuras.

“Irapuã é o ciúme e o valor marcial; Araken a austera sabedoria dos anos; Iracema o amor. No meio destes caracteres distintos e animados, a amizade é simbolizada em Poti. Entre os indígenas a amizade não era este sentimento, que à força de civilizar-se, tornou-se raro; nascia da simpatia das almas, avivava-se com o perigo, repousava na abnegação recíproca; Poti e Martim, são os dois amigos da lenda, votados à mútua estima e ao mútuo sacrifício”