Augusto de Campos e a Poesia Concreta

por Juliana Di Fiori Pondian

Augusto de Campos e a Poesia Concreta

Se você conseguiu ler “Viva Vaia” na imagem acima: PARABÉNS! Se não, vamos lá:

Em toda a história das idas e vindas dos movimentos artísticos, sabe-se que há sempre um mesmo e constante movimento de “pergunta/resposta”, “negação/afirmação”, “integração/transgressão”. Um movimento começa quando surge um grupo que irá se colocar em conjunção com determinados valores estéticos contrários àqueles vigentes em sua época, a fim de negá-los ou transgredi-los.

Grupo Noigandres: Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de CamposCom a poesia concreta brasileira não foi diferente, pelo contrário, é um dos períodos literários em que esse movimento se mostra mais evidente, tendo sido inclusive rigorosamente formulado por seus próprios mentores. Tudo começa às voltas de 1950, quando o cenário poético brasileiro é ainda dominado pelos poetas da Geração de 45, os “neoparnasianos” (que, por sua vez, constituíam seu discurso por oposição à geração que os precede, o Modernismo de 22).

Nesse clima surge um trio de amigos-poetas, o Grupo Noigandres: Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos (foto ao lado), para criar a Poesia Concreta. Ao mesmo tempo em que publicam seus primeiros poemas, estes poetas criam uma revista própria, intitulada Noigandres, para divulgar suas ideias e sua produção. Mais tarde, o grupo publicou ainda uma série de traduções de poetas estrangeiros e um livro no qual apresentavam seus princípios estéticos: a Teoria da Poesia Concreta (1956).

O projeto Noigandres consistia em fazer poemas de um modo bastante diferente e inovador, influenciado por autores como Mallarmé, Apollinaire, Joyce, Pound, cummings etc. O poema era concebido por eles como um objeto “verbivocovisual” – palavra-valise criada por James Joyce, e amplamente utilizada pelos poetas concretos, e que quer dizer que o texto deve ser dotado de características verbais (verbi), sonoras (voco) e visuais (visual).

Augusto de Campos, poeta integrante do grupo, completou 80 anos em 2011 e dedicamos este post a ele! A poesia de Augusto é bastante variada e impossível de ser rotulada; há poemas visuais, colagens, hologramas, popcretos, poemóbiles, e até mesmo poemas digitais, feitos para serem vistos e ouvidos no computador. É o poeta que mais explorou a visualidade do texto poético, sem deixar de lado o caráter oral e sonoro do poema. Vamos ver algumas de suas criações a seguir.

Augusto é o autor da série de poemas que inaugurou a Poesia Concreta, publicada em 1955. Chama-se poetamenos e é composta por 6 poemas e um texto introdutório em que o poeta anuncia os princípios de sua composição: simular no poema a “melodia de timbres” do compositor austríaco Anton Webern. Então, todos os poemas são coloridos (em cada cor, tem-se um timbre) e utilizam diversos procedimentos de sonorização, composição de palavras, termos em línguas estrangeiras, além de uma distribuição especial das palavras no branco da página, como em lygia fingers (veja o vídeo abaixo, na leitura do próprio Augusto):

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=wx0XqXpQtO8&w=600&h=437]

Ou neste outro poema, da mesma série, lido e musicado por Caetano Veloso:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=MpXwgmMQu5c&w=600&h=437]

Mas, nem todos os poemas de Augusto são coloridos. Há também composições em preto e branco, como o poema pos tudo (abaixo). Este é um dos mais polêmicos poemas do autor, publicado na década de 80. Reparem na disposição das palavras na página, na fonte inusual, no texto em branco sobre um fundo preto, e no jogo sonoro e semântico construído:

Póstudo

Póstudo

Ou neste aqui, na leitura do autor:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=jaQq34VBX_M&w=600&h=335]

Eis o texto literário (o poema deve ser grafado como uma única linha, mantendo separados, ao fim, apenas os vocábulos “cidade”, “city” e “cité”):  clique aqui.

Há ainda os poemóbiles, livro publicado por Augusto em parceria com o artista plástico Julio Plaza. O livro é constituído de doze “poemas” (cartões) que compõem também objetos plásticos tridimensionais:

Poemóbiles

Poemóbiles

Além desses, os livros de Augusto normalmente costumam vir acompanhados de um CD (áudio ou ROM) em que constam leituras do poeta tais como as que mostramos acima, ou os poemas digitais, como este abaixo:

poema bomba

Poema bomba

Enfim, esta foi apenas uma pequena amostra da produção de Augusto de Campos. A Balada Literária, evento anual que acontece em São Paulo desde 2006, este ano tem uma programação especial em comemoração aos 80 anos de Augusto, confira!

Referências:

Site oficial do poeta: http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm

Para saber mais, veja uma análise do poema Lygia Fingers: http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es/eSSe1/2005-eSSe1-J.DIFIORI.pdf

Balada Literária 2011: http://baladaliteraria.zip.net/